Por Kenneth Brown, G0PSW. Traduzido e adaptado por Alisson, PR7GA


A história conta que a primeira mensagem de telégrafo por meio de fios tenha sido enviada de Washington para Baltimore em maio de 1844 por Samuel Finley Breeze Morse (1791-1872). Acredita-se que ele enviou a mensagem em inglês "What hath God wrought", que em português seria "Que coisas Deus tem feito!", usando um código de sinais que ele e seu associado Alfred Louis Vail (1807-1859), haviam desenvolvido alguns anos antes. 

Após esta conquista importante e após a fundação da empresa Western Union em 1856, as linhas telegráficas se espalharam rapidamente de costa a costa, tornando-se comercialmente viável enviar e receber mensagens telegráficas por meio daqueles fios.

A partir daí, percebendo o potencial aumento da velocidade e da precisão no envio de informações à distância, jornais, ferrovias e os correios fizeram grande uso do telégrafo para proporcionar aos seus clientes uma comunicação ágil, econômica, pessoal e comercial. Isso também abriu o caminho para a transmissão de mensagens por rádio a partir do final da década de 1890, após os experimentos bem-sucedidos de Marconi.

O USO DE CÓDIGOS: 73


Uma maneira de acelerar o fluxo de mensagens era utilizar um conjunto de códigos curtos, previamente acordados, para substituir mensagens mais longas. Porém, naquela época não havia um padrão nacional ou internacional estabelecido. 

A primeira de muitas conferências para discutir e tentar resolver esta questão foi realizada nos Estados Unidos em abril de 1857, culminando com o lançamento do livro National Telegraphic Review and Operators' Guide. Este Guia traz a primeira referência conhecida ao código 73, que naquela época significava “love and kisses” (amor e beijos). Edições posteriores mantiveram essa definição, mas com o passar do tempo, o significado de 73 mudou do que parecia ser uma cumprimento do Dia dos Namorados para uma saudação fraternal entre os operadores.

Pois anos depois, a Western Union estabeleceu seu Código Padrão 92 em 1859. Substituindo sentenças e frases comuns por números entre 1 e 92, uma mensagem era telegrafada para uma estação distante. Lá, os números eram decodificados e o resultado era a mensagem original em linguagem comum, que então seria entregue ao destinatário. Neste conjunto de códigos, a definição de 73 mudou mais uma vez para  "receba meus cumprimentos". 

De 1859 a 1900, os muitos manuais telegráficos mostram diversas variações em torno deste significado. Cada grande companhia telegráfica ou ferroviária tinha seus próprios códigos telegráficos distintos. Para piorar ainda mais, na época existiam duas variações do Código Morse, as versões americana e continental (europeia). Embora houvesse semelhanças básicas, havia também algumas diferenças importantes. Estes dois fatores causavam bastante confusão e tornava a comunicação bastante difícil entre redes pertencentes a companhias diferentes.

Em 1908, o Manual de Dodge nos EUA definia o significado do 73 como “meus cumprimentos” (original “best regards”), o qual perdura até hoje. Outros códigos ali definidos foram 88 (amor e beijos), 55 (muito sucesso) e 99 (“suma daqui”, provavelmente não foi oficial).

O CÓDIGO Q


Ainda em 1908, o Serviço Postal Britânico, desesperado para estabelecer um código internacional de abreviações, publicou sua própria lista de abreviações composta por duas letras e destinadas ao uso entre estações costeiras e navios britânicos. A lista, publicada no PMG's Instructions to Wireless Telegraphists, incluía as abreviaturas de RA até RZ e de SA até SF. 

Em seguida, a Convenção Radiotelegráfica Internacional, realizada em Londres em julho de 1912, adotou e ampliou estas abreviações dos Correios Britânicos, adicionando àquele código a letra “Q” e criando o código "Q". O novo código abrangia de QRA até QRZ e de QSA até QSX. 

Em 1º de julho de 1913, o código Q foi finalmente estabelecido internacional e oficialmente, sendo atualizado conforme as circunstâncias exigiam, à medida que havia necessidade de incluir outros códigos específicos relacionados à navegação aérea e marítima.

OUTROS CÓDIGOS


Algum tempo depois veio o código Z, utilizado em paralelo com o código Q. Este originou-se como um código criado por uma empresa com aplicação restrita a máquinas de telegrafia em alta velocidade operando em 120 ppm (palavras por minuto). Amplamente utilizado por muitos países, incluindo a Alemanha, o código Q e o código Z continuaram em uso durante a guerra. 

Após a guerra, o Morse de alta velocidade tornou-se menos utilizado e foi substituído por outras formas de comunicação rápida, como RTTY e fac-símile. O código Z então gradualmente caiu em desuso e desapareceu. Exemplos do código Z incluem ZAA (você não está observando a disciplina do circuito), ZAN (não conseguimos receber absolutamente nada), ZST (envie o comprovante duas vezes), ZAP (acuse recebimento, por favor) e vários outros.

Utilizado durante os anos 1930 e início dos anos 1940, paralelamente aos códigos Z e Q, existia o código X, operado pelos militares europeus como um código de telegrafia via rádio. Era composto pela letra X seguida por um número. Por exemplo, X34 significava "seu Morse é ruim", X50 significava "seu Morse é bom", X100 significava "afirmativo", X112 significava "interrogativo", X279 significava "qual é o nível do meu sinal?" e X496/257 significava "Estou recolhendo minha antena antes de pousar/não tenho mais nada para você".

O código X continuou em uso pelas Forças Armadas até 1942, quando, por insistência dos militares dos EUA, foi substituído pelo código Q.

A VITÓRIA DO CÓDIGO Q


Assim, o código Q tornou-se o código telegráfico padrão a nível internacional tanto no âmbito civil quanto militar em CW, e às vezes, incorretamente, até mesmo em RTTY. Publicado como um manual do operador, existem seções separadas dedicadas a diversos serviços de comunicação. 

Alguns exemplos menos conhecidos do código Q usados pelas estações base do exército britânico incluíam QAU seguido por QHU, que significa "estou encharcado" e "estou prestes a descartar combustível" (seguido geralmente por AS5). Ainda menos conhecido é o QGG, que significa "mande o pônei no próximo trem".

Amplamente utilizado por radioamadores, especialmente os que operam em CW, o código Q atual tem significados ligeiramente diferentes, mas ainda é muito semelhante à versão de 1912. Um dos grandes benefícios de usar o código Q é o prazer de poder se comunicar com operadores estrangeiros que podem não ser fluentes na nossa própria língua.

Em conclusão, é triste ver que não haverá sucessor para o código Q, já que o código Morse não é mais ensinado a telegrafistas iniciantes, exceto para os poucos operadores de sinais luminosos na Marinha. As transmissões de dados substituíram o Morse e assumiram a preferência na comunicação cotidiana. Tal é a marcha do tempo.

Agradecimentos a Pat Hawker G3VA e Peter Broom G5DQ, por sua ajuda e conselhos.

NOTA DO TRADUTOR


Apesar da conclusão pessimista do autor, afirmamos que o morse continua firme e forte nos dias atuais não só entre radioamadores, mas até sendo utilizado como forma de comunicação por parte de pessoas surdas-cegas, utilizando o tato. O próprio Google desenvolveu e mantém disponível uma página com diversos programas e soluções utilizando o Morse, incluindo até um Teclado Morse que pode ser utilizado em qualquer celular Android.

Embora não tenha como foco especificamente o Morse, or isso, terminamos este artigo de forma otimista, mostrando que o código inventado há quase duzentos anos continua relevante, mesmo nos dias atuais.

Um forte 73!

Fonte do artigo original: https://www.qsl.net/w5www/73.html


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4 Comentários

  1. Excelente Materia! O autor só esqueceu de comentar os Radiotelegrafistas sempre foram muito mal pagos,nao tinham valor algum,se fosse demitidos,já haviam 10 na fila esperando... E com o Advento do Telex,o Morse foi para a lata de lixo

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  2. Caro amigo, muito obrigado pela excelente e esclarecedora matéria! 73 tudo de bom a vc. Viva o eterno CW! PY4AGO Cristina-MG

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