Por Alisson, PR7GA

Numa entrevista para o podcast Q5 Ham Radio, o piloto de 80 anos conta sua história na aviação militar e civil, operando tanto de aeronaves como em terra, destacando o concurso CQMM e as dicas para quem está começando nas competições.


O canal Q5 Worldwide Ham Radio, apresentado por Kevin Thomas (W1DEED), publicou uma entrevista bem interessante com o veterano Tom Morton (K2GO). É a segunda parte de uma conversa que se iniciou neste outro vídeo. Vale a pena assistir também. Já no vídeo que nos baseamos para o texto desta matéria, ele conta parte de suas histórias voando e operando pelo mundo. Com seus 80 anos e mais de sessenta anos de rádio nas costas, ele mostra uma memória incrível tanto para falar dos tempos de aviação quanto do radioamadorismo, incluindo referências ao Brasil e a importância do concurso CQMM, organizado pelo CWJF, de Juiz de Fora, MG.


De piloto de caça a auditor internacional

A trajetória de Tom na aviação começou logo após a faculdade, quando ingressou na Escola de Aviação da Marinha dos EUA em Pensacola. Ao longo de sua carreira militar ativa, ele pilotou aeronaves como o A4 e o F8 Crusader, além de atuar por seis anos como Oficial de Sinais de Pouso (LSO) em porta-aviões, sendo responsável por orientar pousos visuais complexos. Ao sair para a reserva, ele alcançou o posto de Capitão Sênior e comandou um grupo tático de transporte, recebendo o título honorífico de Comodoro.

Depois que saiu da Marinha, ele migrou para a aviação civil. Começou como copiloto de Boeing 707 cargueiro e com 30 anos já era comandante do 707 morando em Berlim, na época da guerra fria. Depois ele voltou para os Estados Unidos e foi voar numa empresa pequena que acabou comprada pela American Airlines em 1987. Na American ele virou comandante de Boeing 757 e 767 baseado em Miami, voando frequentemente para a América do Sul. Nessas longas viagens noturnas, aproveitava o tempo livre para operar móvel aeronáutico lá de cima. O Boeing 767 tinha uma antena instalada dentro do estabilizador vertical da cauda, e assim ele conseguia fechar contatos DX com Europa e Oriente Médio aproveitando o fuso horário.

Perto de se aposentar da aviação por causa da idade (60 anos), ele conheceu a mulher da vida dele num dos seus últimos voos. Eles casaram e mudaram para o Uruguai, onde ele operou como CX7T. Mas ele não conseguiu ficar parado muito tempo e foi ser instrutor de Boeing 777 e do 787 Dreamliner. Desde 2022, Tom realiza auditorias diretamente em companhias aéreas pelo mundo. Ele veste seu uniforme de comandante com as quatro berimbelas (faixas na manga) e vai sentado no banco de trás da cabine de comando (jump seat) apenas observando se os pilotos estão seguindo à risca os procedimentos operacionais padrão (SOPs) em mais de 50 linhas aéreas ao redor do mundo. O veterano diz que fazer isso aos 80 anos é o que mantém a cabeça funcionando no meio de tanto piloto jovem.


O gosto pela operação remota

Falando sobre radioamadorismo, Tom comentou que começou a usar estação remota por volta de 2011 ou 2012 com a ajuda do amigo Mike (W4RN). Usando a estação do clube W4 Yankee Yankee, ele conseguia operar da casa dele no Uruguai e participar do contest Sweepstakes em CW usando o indicativo norte-americano para faturar os pontos. Ele também operou bastante de forma remota a super estação do falecido Jack (K4VV), que tinha torres gigantes que pareciam árvores de natal cheias de antenas direcionais.

Quando foi morar no Panamá ele teve problemas com as regras do condomínio que proibiam antenas no teto, mas resolveu o problema operando como HO2T a partir da marina de um amigo. A estação ficava próxima da praia, e por isso os reportes de sinal eram excelentes. Hoje ele também realiza operações de uma estação em Cerro Azul, uma região de colinas localizada a cerca de uma hora e meia de viagem de onde ele reside no Panamá. O local pertence a um radioamador nova-iorquino que montou uma estrutura excelente por lá, aproveitando a altitude de 800 m onde a recepção é totalmente limpa e silenciosa. A estação conta com equipamentos de primeira linha e uma torre motorizada de 22 m com uma grande antena multibanda instalada.

No ano passado, durante o concurso CQWW, Tom foi até lá para ajudar os operadores sobre operação em concurso de fonia e como gerenciar um pileup de verdade, ensinando detalhadamente a etiqueta de pileup e o registro dos contatos (log). Atualmente ele está projetando uma nova estação de contest junto com um colega local num sítio próximo à Cidade do Panamá, de onde irão operar como HP6 ou usando algum outro prefixo autorizado no Panamá tipo HO, H8 ou 3E.

Tom explicou que virou fã dessas operações remotas por vários motivos bem práticos:

  • Opção para quem não tem espaço: Quem mora em prédio ou tem restrição de espaço e só pode usar antena de fio embaixo do telhado ou uma vertical escondida agora consegue usar bons rádios e antenas direcionais sem sair de casa.
  • Menos cansaço: Antigamente, para montar uma equipe para o contest, precisava juntar 12 pessoas, gastar dinheiro com viagem e ir todo mundo para estações “profissionais” tipo a K3LR passar o fim de semana “ligado” no concurso. Hoje em dia dá para revezar o rádio pelo computador e manter a conversa num grupo de WhatsApp ou outro aplicativo para combinar a operação.
  • Renovação: Está ajudando muito a trazer sangue novo para o rádio. Há donos de grandes estações no Caribe, como em PJ ou P40, abrindo as portas para o pessoal jovem (YOTA) operar remoto e ganhar experiência internacional.
  • Oportunidades para os mais idosos: Dá para adaptar o ritmo para o pessoal de mais idade. Ele participou de um contest da ARRL remoto com mais três amigos onde fizeram turnos de duas horas operando e seis horas descansando. Deu para aproveitar o concurso sem ninguém ficar esgotado.

O brilho do CW e a conexão com o Brasil

Tom falou com muito carinho sobre o CW Ops, um grupo focado exclusivamente em telegrafia e na disseminação desta nobre arte. Tom entrou logo no começo, ocupando a cadeira número 518. Ele elogiou muito a CW Academy, elogiando as aulas e destacando o trabalho dos instrutores para ajudar os alunos a chegarem nas 25 palavras por minuto. Graças a isso, o clube já está batendo quase 4.000 membros no mundo todo, inclusive no Brasil.

Falando em telegrafia, Tom abriu um espaço grande para elogiar o CQMM DX Contest, concurso internacional de CW organizado pelo CWJF (Grupo Juizforano de CW) aqui no Brasil, hoje presidido pelo PY4WAS, o Edson Fonseca (Ed). Mostrando que prestava atenção nos lugares por onde passava quando era piloto, ele explicou na entrevista a origem da cidade de Juiz de Fora, que cresceu às margens de um rio que servia de rota para escoar o ouro que vinha lá do interior de Minas Gerais no século 18 e 19. Ele até comparou Belo Horizonte com a cidade de Denver, dizendo que é de lá que saem as pedras preciosas e as turmalinas que as YL gostam de usar. Ele disse que voou bastante para a região, e é por isso que conhece esses detalhes.

Demonstrando ter uma memória incrível, ele ainda falou sobre a história do concurso brasileiro, lembrando que começou nos anos 1980 com o colega PY4AG, que queria montar um grupo de telegrafia, iniciando com 17 membros. Daí, continua ele, entre 1993 e 1994, eles organizaram a competição num estilo parecido com o Sweepstakes americano, conseguindo juntar gente de todos os 26 estados do Brasil e mais o Distrito Federal. No final dos anos 90 o concurso passou a valer para toda a América do Sul e por volta de 2011 liberaram para o resto do mundo.

Membro do CWJF desde 2021, ele elogiou o sistema onde se paga uma taxa única de 50 dólares e vira membro vitalício. Isso criou uma dinâmica legal no concurso, porque no exchange do contest o membro do clube passa no final a letra “M” (membro), o que garante 10 pontos no concurso. Assim os membros do CWJF são bastante “caçados” nas bandas. Falando sobre sua participação na última edição do concurso, ocorrida em abril de 2026, Tom disse que mesmo com a propagação um pouco difícil, fez muitos contatos com gente querendo esses pontos extras.


Conselhos para os iniciantes nos pileups

Aproveitando sua experiência como instrutor de voo e organizador de equipes, Tom deixou dicas de ouro para quem está começando nos contests ou quer melhorar o rendimento no rádio:

  1. Não comece pelo mais difícil: Tom recomenda não começar direto num “caos” que é o CQ Worldwide CW (CQWW CW). O ideal é treinar em concursos menores e mais simples, tipo as QSO Parties americanas ou o contest de 24 horas da IARU (Nota de PR7GA: complementando, também sugiro o próprio CQMMQRS 10, CVADX, ou Batalha Naval de Riachuelo como exemplos de concursos brasileiros, além da maratona QRS 10), onde dá para aprender sem “ficar maluco” com a velocidade.
  2. Paciência é tudo: Começar no rádio exige paciência. Ele contou rindo a história de um colega novato da África do Sul que estava operando fonia e tentava registrar uma estação com sufixo "YN". O rapaz não entendeu bem o inglês e digitou "W-H-Y-N" (algo como "por que n" em inglês) na tela do computador. A equipe teve que parar o rádio de tanto rir da confusão.
  3. Evite ficar só chamando CQ: Um dos maiores erros de quem está começando é ficar repetindo o próprio indicativo sem parar para ouvir (calling, calling, calling). Isso só serve para entupir a frequência e irritar quem está operando. Ele deu o exemplo de um colega panamenho iniciante no contest de fonia da ARRL que estava com um sinal fortíssimo usando 100 watts e uma antena dipolo na varanda do apartamento. O rapaz ficou tão atordoado com o monte de gente respondendo a ele ao mesmo tempo que travava e só conseguia fechar um contato a cada dois ou três minutos. Tom ligou para ele na segunda-feira e passou uma hora e meia explicando como se comportar nessas situações.
  4. Aprenda a usar o RIT (Receiver Incremental Tuning): Esse recurso dos rádios ajuda muito a achar o sinal no meio da bagunça. Tom lembrou dos tempos de Uruguai quando entrava na banda de 20 metros no fim do concurso e era caçado por centenas de estações dos EUA e Canadá que chegavam muito forte. Para conseguir ouvir o pessoal, ele setava o filtro do rádio bem estreito e usava o botão do RIT para mudar a escuta um pouquinho para cima ou para baixo da frequência principal. Esse pequeno ajuste bastava para isolar o som de uma estação, pegar as primeiras letras do indicativo e fechar o contato antes que o resto do pessoal percebesse onde ele estava ouvindo.
  5. Cuidado com a velocidade: Saber a hora de apertar ou soltar o ritmo funciona melhor que ter potência alta. Se você está participando do CQMM brasileiro e nota que tem um novato com dificuldade para entender, diminua a velocidade para umas 22 wpm. Demora um pouquinho mais, mas você garante o ponto e o multiplicador para o seu score.
  6. Não atropele os outros (Tail-Ending ruim): Transmitir o seu indicativo em cima de um contato que ainda está sendo concluído é falta de educação no rádio. Tom contou que mandou um e-mail para o dono de uma estação famosa nos EUA para avisar que um dos operadores deles estava fazendo isso insistentemente. O dono agradeceu e disse iria ensinar a pessoa a operar direito.
  7. Treine no computador: Pra quem gosta de CW, ele recomenda usar o simulador Morse Runner uns 10 minutos de manhã e mais 10 de tarde. Ele citou o exemplo do operador Bratzo (E77OX), que bateu recordes mundiais operando a estação D4C em 2024. Numa palestra na Croácia, o Bratzo contou que o treino dele era rodar dois Morse Runner ao mesmo tempo — um em cada ouvido com fones separados — enquanto digitava os contatos em dois teclados diferentes. Existem também programas que mandam indicativos reais cada vez mais rápido conforme você vai acertando, o que ajuda a acostumar a cabeça com velocidades acima de 40 wpm.
  8. Estratégia para Fonia (SSB): Se a sua estação não tem torres de cinquenta metros com antenas gigantes, não adianta perder tempo tentando furar pileup gigante nas primeiras horas do contest. O segredo é aguardar e deixar para caçar essas estações grandes no domingo à tarde, porque nessa altura eles já falaram com quase todo mundo e conseguem atender qualquer sinal fraco que aparecer na frequência para somar ponto.

Olhando para trás e lembrando dos seus mais de 60 anos no radioamadorismo, começando com 13 ou 14 anos no Sweepstakes desde 1959, Tom resume dizendo que o melhor de tudo são os amigos que a gente faz pelo caminho. Ele ainda mantém contato com o K1RX, parceiro de competições desde a época das Ilhas Virgens Britânicas no começo dos anos 80. A curiosidade dele também fez ele testar coisas novas, como o modo digital FT8 por volta de 2017, onde conseguiu contatos com 166 países, incluindo 36 nações na banda de 60 metros usando uma antena de fio de 40 m de comprimento pendurada na janela do apartamento.

Outra lembrança marcante foi um contato via reflexão lunar (Moon Bounce) na banda de 6 metros com Lance, W7GJ. Operando de sua casa em Montevidéu, no Uruguai, Tom recebeu um e-mail de Lance propondo realizarem o primeiro contato dessa modalidade com o Uruguai. Tom utilizava uma antena direcional comum (uma SteppIR com um acoplamento para 6 metros). Sem poder inclinar a antena para cima, ele precisou esperar pacientemente por cerca de 45 minutos até que a Lua atingisse 30 graus de elevação no horizonte para que ficasse na direção em que a antena apontava. Finalmente, conseguiu o contato: o sinal viajou até o solo lunar e retornou até os EUA (cerca de 800 mil km no total), garantindo o sucesso da operação histórica.


Assista à entrevista na íntegra

O bate-papo completo com o título "Flying the World: K2GO from Cockpit to Pileups" está disponível no canal oficial do YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=CLWz31wy7w0

Assista também à outra entrevista do Tom, onde ele detalha suas operações nos anos 1960 em diante: https://www.youtube.com/watch?v=05yu_3cQ2Uc

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