Por Bec Whetham. Traduzido por Alisson, PR7GA

Para a NASA, ele é VK5ZAI. Para seus vizinhos em Pinks Beach, uma pequena cidade litorânea no sul da Austrália, é conhecido apenas por Tony. Durante os 30 anos nos quais trabalhou com a agência espacial americana, Tony Hutchison prestou assistência em tempos de crise, serviu como ponte entre astronautas e suas famílias e até administrou um programa educacional internacional.



Entre uma atividade e outra, ele tomou cerveja com os primeiros comandantes, participou de churrascos com especialistas em missões e assistiu o ônibus espacial ser lançado das arquibancadas do Centro Espacial Kennedy.



Ele nunca imaginou que passaria por tudo isso.




De radioamador a colaborador da NASA


Tony, que hoje tem 80 anos, apaixonou-se pelo rádio aos 10 anos, prestou exame e recebeu sua licença aos 21 e se envolveu com comunicação via satélite alguns anos depois. Em outubro de 1992, ele fez seu primeiro contato com alguém fora da Terra - o cosmonauta Anatoly Solovyev, que na época estava à bordo da estação espacial russa, a MIR. Ele conta que era fácil fazer contato naquele tempo, bastando a MIR passar no seu QTH.

Os vizinhos entenderam nada quando três grandes antenas foram instaladas na casa de Tony


A partir do ano seguinte, Hutchison manteve QSOs regulares com a estação espacial. Ele conta que os russos gostavam de fazer contato para aprender e melhorar o seu inglês.

As paredes e estantes da estação de VK5ZAI estão repletas de diplomas e lembranças de seus feitos

Acabou se tornando amigo de um desses cosmonautas, Aleksandr Serebrov. Frequentemente o russo fazia contato quando passava pelo QTH de Tony, ainda que, naquele horário, normalmente era madrugada e ele deveria estar descansando.

A NASA finalmente percebeu e pediu para Tony comunicar-se com o astronauta Andy Thomas enquanto ele estava a bordo da MIR.

Tony também aprecia ouvir outras coisas além do rádio


Levando crianças ao espaço


Foi o amigo russo Serebrov quem participou do primeiro contato entre uma escola e a estação espacial russa que Tony organizou em 1993. Um grupo de crianças da escola Loxton High School foi à estação de Tony em Riverland, onde fizeram perguntas aos cosmonautas sobre vida e o espaço. Ele conta que a emoção de ouvir uma voz vinda do espaço é indescritível, uma descarga de adrenalina, mesmo tendo feito isto inúmeras vezes.

Uma aluna da Kingston Area School espera que um astronauta responda sua pergunta durante um contato com a ISS.

Quando a estação MIR estava próxima de sua aposentadoria, a NASA pediu a Tony para ajudar a formar um programa educacional para o seu próximo projeto, a Estação Espacial Internacional (ISS). Já na época de seu lançamento, em 1998, Tony já havia ajudado a formar a ARISS, a entidade que gerencia todo o programa educacional da ISS, incluindo os contatos com escolas.

Durante mais de 20 anos, a ARISS já conectou astronautas a 1.300 escolas em todo o mundo, 70 delas na Austrália.

[Duas destas escolas estão no Brasil, a Escola Americana do Rio de Janeiro, que fez contato em 2006 com o então astronauta Marcos Pontes e foi gerenciado pelo colega PY1KCF e a Escola Estadual Gonçalves Dias, que fica em Boa Vista, Roraima, cujo contato, feito em 2014, foi gerenciado pelo colega Paulo Leite, PV8DX. Leia mais acessando este linkeste link. Neste outro link, é possível visualizar todos os contatos da ISS por meio do programa ARISS. Nota do tradutor.]


O Shack do Tony abriga diversos equipamentos acumulados durante décadas.


Sobre estes contatos, Tony disse que conectar estudantes a astronautas é algo completamente diferente de um QSO "normal", por assim dizer.

De um lado, temos centenas de estudantes na escola esperando num determinado local do globo, e do outro lado, o astronauta esperando na estação espacial. Às vezes o suspense aumentava pois tinham que chamar, uma, duas, três vezes até o astronauta estar ao alcance do sinal e responder. Dos milhares de estudantes que participaram destes contatos, alguns acabaram seguindo a carreira da ciência espacial.

Tony revela um desejo: transmitir nosso conhecimento para a próxima geração e incentivar crianças, adolescentes e estudantes universitários a ingressar e continuar uma carreira em engenharia, ciências, matemática.

Uma foto assinada pelo astronauta Jim Voss agradecendo a Tony por seu serviço e amizade

Amigos e família fora deste mundo

Tony fez contato com cerca de 100 astronautas durante o tempo em que esteve trabalhando junto à NASA, e até ajudou a alguns manterem contato com suas famílias. Nestas ocasiões, ele afirma que jamais revelou os assuntos particulares que ajudou a repassar.

Em 2001, a NASA convidou Tony e sua esposa Jill para participar do lançamento de um ônibus espacial. Na ocasião, ele teve a oportunidade de encontrar-se com alguns dos muitos astronautas com quem falou, mas jamais havia visto, incluindo Bill Shepherd, o primeiro comandante da ISS.

Tony e sua esposa com o comandante Bill Shepherd em sua viagem de 2001 aos Estados Unidos.

Ele conta que jamais imaginou que estes astronautas eram "gente como a gente". Quando conheceu alguns deles, eram apenas pessoas comuns com uma mente brilhante, do tipo que se pode sentar numa mesa e conversar sobre tudo.

Tony e a esposa foram tratados como amigos e familiares dos astronautas, jantando com a tripulação antes do lançamento e assistindo a decolagem de um local a três quilômetros do lançamento. Ele conta que "o barulho é incrível, você sente todo o seu corpo tremer... um rugido enorme, pode sentir na sua coluna".

Uma visita à NASA com um grupo de amigos radioamadores da Austrália


Dizendo não à NASA

Durante esta visita, a NASA ofereceu a Tony uma oportunidade incrível - um contrato de dois anos com o centro de controle em Houston. Depois de conversar bastante com a esposa durante a noite, Tony resolveu recusar a proposta. Com filhos e netos vivendo na Austrália, eles decidiram que não era o momento de estarem longe, nos EUA.

Trabalhar em casa tem suas regalias

No fim de 2019, Tony se afastará da ARISS indefinidamente. Apesar dos anos incríveis que passou, ele disse que se sente um pouco "obsoleto" e que quer dedicar-se à sua esposa, Jill. "Ela certamente sabia no que estava se metendo, quando nos casamos, e ela me apoiou durante todo este tempo. Sou bastante sortudo", ele conta, acrescentando que pretende viajar pela Austrália com seu motor-home.

Porém, com a NASA construindo uma nova base na Lua dentro de alguns anos, Tony não descarta retornar. "Estou ficando um pouco velho, mas espero estar por perto para ver. Estou ansioso por isso".

Tony Hutchison dedicou sua vida ao radioamadorismo

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1 Comentários

  1. Olá estimado Alisson. Você mantém a história do nosso radioamadorismo. Parabéns.
    Para complementar...Embora a solicitação do projeto na NASA tenha sido para Escola Estadual Gonçalves Dias. O Instituto Federal de Roraima, Campus Boa Vista participou também com 6 alunos.
    73 de Paulo PV8DX

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